Opinião

Zema entendeu uma coisa que boa parte da direita ainda não entendeu sobre 2026

Ao transformar o embate com Gilmar Mendes em ativo político, o ex-governador joga no terreno em que parte do eleitorado mais se mobiliza: o desgaste do Supremo

O embate entre Romeu Zema e Gilmar Mendes não é apenas mais uma briga entre político e ministro do STF. É, na verdade, um retrato bastante claro de como a pré-campanha presidencial de 2026 começa a ganhar forma. Quando Gilmar pediu a inclusão de Zema no inquérito das fake news após postagens do ex-governador, e o caso passou a mobilizar outros nomes da oposição, o episódio deixou de ser jurídico e virou eleitoral.

O conflito interessa mais a Zema do que parece

Zema percebeu algo que muitos adversários do governo ainda tratam com timidez: existe, em parcela relevante do eleitorado, um cansaço real com o protagonismo político do Supremo. Ao tensionar sua relação com Gilmar Mendes, ele tenta ocupar justamente esse espaço simbólico — o de quem se apresenta como voz de enfrentamento a uma Corte que, para seus apoiadores, ultrapassou os limites da função institucional. Essa leitura é uma interpretação política a partir do pedido de investigação feito por Gilmar e da reação pública gerada em torno do caso.

Não se trata de discutir aqui se Zema está certo no mérito ou se Gilmar exagerou na resposta. O ponto mais importante é outro: o embate rende politicamente. E rende porque coloca Zema em confronto direto com um alvo que mobiliza emoção, indignação e identidade política em parte da direita.

O STF virou personagem eleitoral

Durante muito tempo, candidatos de centro e de direita preferiram criticar o Supremo de forma lateral, quase envergonhada. Zema parece disposto a fazer o contrário. Ao entrar em rota de colisão com Gilmar Mendes, ele ajuda a empurrar o STF para o centro da campanha — não como pano de fundo institucional, mas como personagem político da eleição.

Isso já aparece na forma como aliados reagem. O governador Ronaldo Caiado, por exemplo, saiu em defesa de Zema e criticou a inclusão dele no inquérito, dizendo que a medida extrapola funções do Supremo. Quando outros pré-candidatos ou aliados de peso passam a embarcar na mesma narrativa, o que era caso isolado começa a virar plataforma política compartilhada.

Gilmar também ajuda a alimentar o jogo

Há um paradoxo nisso tudo. Ao reagir com força, Gilmar Mendes pode até tentar impor limite institucional ao que considera ataque ou irresponsabilidade, mas também ajuda a ampliar a visibilidade do adversário. Em política, principalmente em pré-campanha, confronto com figuras de grande projeção costuma ser combustível. Zema, que busca ampliar seu alcance nacional, sabe disso.

O episódio ganhou ainda mais ruído quando Gilmar se desculpou por uma fala considerada inadequada ao citar homossexualidade de forma ofensiva no contexto da crise. O pedido de desculpas mostrou sensibilidade ao erro, mas também prolongou o ciclo noticioso e manteve o tema no topo do debate político.

O risco dessa estratégia

Isso não significa que a tática seja perfeita. Há risco real de Zema parecer calculadamente provocador demais e acabar falando apenas para um nicho já convencido. Também existe o perigo de transformar um discurso de crítica institucional em mera encenação de internet. O problema de parte da direita brasileira, aliás, é justamente confundir enfrentamento político com performance digital.

Mas, ainda assim, Zema parece ter encontrado um caminho claro: usar o desgaste do Supremo como escada para nacionalizar sua imagem. Em um cenário ainda aberto para 2026, isso pode ser mais eficiente do que tentar parecer moderado demais em um ambiente que premia conflito, contraste e posicionamento.

O que o caso revela sobre a eleição

O principal ensinamento desse episódio talvez seja este: a eleição de 2026 não será disputada apenas em torno de economia, programas sociais ou segurança pública. Ela também será travada no campo institucional, na disputa sobre os limites do Judiciário, sobre liberdade de expressão e sobre quem consegue incorporar melhor o sentimento de desgaste com o sistema político.

Zema pode até não sair juridicamente fortalecido desse confronto. Mas politicamente, ao menos por enquanto, ele parece ter entendido antes de muitos que o STF já virou tema de campanha — e que enfrentar ministros, para uma parte do eleitorado, dá mais voto do que silêncio estratégico. Essa é uma análise opinativa baseada nos fatos recentes do embate e nas reações públicas já observadas.


No jogo frio da pré-campanha, Zema não brigou apenas com Gilmar Mendes. Brigou para ocupar um espaço político. E talvez tenha percebido antes dos rivais que, em 2026, não basta ser oposição ao governo. Para uma parte do eleitorado, será preciso também ser oposição ao ambiente institucional que hoje tem no Supremo um de seus rostos mais visíveis.

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